quarta-feira, 26 de junho de 2013

Feliciano e "cura gay"

Pois é, vim falar de um assunto que já está ficando até batido, mas depois de tanto discutir e brigar de faca por aí, resolvi registrar minha opinião e visão sobre o assunto.

Sim, vamos falar de "cura gay" ou PDC 234/2011, se vocês preferirem.

Como vocês já devem saber, o projeto tem como objetivo o seguinte:
Susta a aplicação do parágrafo único do art. 3º e o art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.
Acho de extrema importância, antes de iniciar a leitura, que vocês leiam os artigos e parágrafos aqui.

Vou começar replicando os argumentos a favor do PDC mais comuns para ficar mais claro e direto.

Agora senta que lá vem a história...

1. O psicólogo está privado de atender homossexuais.
Errr... não! O profissional psicólogo pode atender qualquer pessoa independente de sua religião, crença, orientação sexual, que seja. Deveria ser óbvio, mas o que é vedado ao psicólogo é justamente não tratar a homossexualidade por não ser doença, justamente.
O psicólogo vai olhar para as demandas do paciente. Caso ele se sinta desconfortável por ser homossexual, por exemplo, a questão é o que causa esse desconforto? Acho que deu para entender, né?

2. Segundo Marco Feliciano, "Não existe cura gay, porque homossexualidade não é doença, mas não podemos tolher o direito de um profissional, como um psicólogo, de estudar um assunto que ainda não se colocou nele um ponto final, ainda é uma incógnita, ainda é um fenômeno" (fonte).
Não encontrei absolutamente nada dentro do Código de Ética que prive o psicólogo de estudar a homossexualidade. Vocês encontraram? Mais uma vez, não vejo necessidade de sustar os artigos.

3. “Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.” não será sustado, o que garante que a homossexualidade não será tratada como patologia.
Certo, mas abre uma margem ambígua sem os demais artigos, não? E se o tratamento for solicitado ou sugerido? Existem pessoas de má fé por aí, minha gente...

4.  A resolução que cita "Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica." fere a liberdade de expressão.
Err... não de novo. Já ouvi por aí pessoas dizendo que psicólogo também é um ser humano e tem direito de expressar suas opiniões e crenças; e é óbvio que eu concordo com isso! O problema seria o psicólogo se apresentar como tal e expor suas opiniões e crenças, podendo reforçar preconceitos.
Não entendeu? Eu explico.

A palavra do psicólogo possui grande valor para a sociedade e tem um peso muito grande. Eu, Fernanda, tenho minhas opiniões e crenças e sou livre para expressá-las, porém, não posso usar um título profissional para validá-las. 
Temos como exemplo a entrevista que o Pr. Silas Malafaia concedeu à Marília Gabriela. Seria OK se ele aparecesse por lá como pastor, mas, quando o assunto chegou até a "cura gay", começou a justificar suas opiniões afirmando "eu sou psicólogo!" e citando Freud (!!). E se deu a polêmica...

A Psicologia é uma ciência. Não podemos usá-la para sustentar argumentos que não possuem comprovação, o que foi o caso do Pastor. Parece bobo, mas esse tipo de coisa reflete em muitas famílias, principalmente as protestantes que têm o Pastor como referência.

Por fim...
Voltando ao Feliciano, vez por outra ele afirma que não concorda com o termo "cura gay", que admite que não é uma doença e que o objetivo dele é dar liberdade ao psicólogo para que este estude o assunto (vejam o item 2). 
Como eu já expliquei durante o texto, o Código NÃO impede os psicólogos de atenderem homossexuais. Justamente, por não ser uma doença, perversão etc e tal, a homossexualidade não vai ter tratada como tal em uma sessão. O sujeito é atendido como qualquer outra pessoa... independente de raça, cor, credo e o que mais vier.

A pesquisa sobre o assunto NÃO é proibida! Inclusive, é bem-vinda. Apenas ressalto que um dos maiores obstáculos em pesquisa é tentar elaborar uma teoria que CONFIRME sua hipótese; o recomendável é tentar derrubá-la. Quanto mais envolvimento emocional na pesquisa, mais duvidoso será o método e seu resultado.

Na minha humilde opinião de acadêmica, as resoluções não atrapalham o exercício da profissão do psicólogo e não ferem sua liberdade de expressão. Caso a PDC seja aprovada, uma porta será aberta e não vai ser muito legal.
Além de dar brecha para que a homossexualidade seja "tratada" de maneira duvidosa, também vai permitir que psicólogos se apresentem em público usando a psicologia como pilar de sustento de suas convicções pessoais. Acredito que nossa profissão exija o mínimo de imparcialidade.

E mais uma vez, várias pessoas vão ser impactadas. Isso sem contar o preconceito e discriminação que já sofrem!
Desculpe, mas não gostaria de ter a minha profissão envolvida nisso.

Acho injusto, também, um deputado querer "mexer" no código de uma categoria que, aparentemente, ele não conhece bem. Se a moda pega...


A homossexualidade não é mais considerada patologia desde 17 de maio de 1990.

Um comentário:

  1. Excelente post! Realmente esta proposta do Ilustre Deputado abre uma margem que polemiza, desqualifica e retrocede a passos largos muitas das conquistas de direitos homossexuais. É daí que temos o grande risco da distorção do entendimento da força da lei. Com uma ação dessas, surgirão os novos psicologos-religiosos capazes de entender a orientação sexual como doença e rompemos o limite do tolerável e aceitável da convivência em sociedade...e os grandes ditadores retornam embarcados num discurso de distinção e superioridade...e vemos a força de um estado ditador guarnecido por um discurso fascista como o do Dr. Feliciânus...ops...Feliciano.

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